Halan Pinheiro

Minha foto
Halan Pinheiro
Natal, Rio Grande do Norte, Brazil
Programador, artista plástico, e aluno de artes marciais, aos 23 anos. Anarquista, realiza experimentos de desobediência civil e formas de organizações alternativas. Defensor do Software livre, esperanto e internacionalismo. E entusiasta sobre carona e nomadismo.
Visualizar meu perfil completo

domingo, 7 de junho de 2009

Conto: Perritos

Como sempre, reinventando esse blog. Espero que essas reinvenções não sejam meras costuradas em rombos. Recém estou escrevendo alguns contos, que não fazem parte do meu livro, mas segue o meu estilo e imaginário. Como eu tenho muito a ver com esse blog (!), acredito que trazer um pouco dessas novidades pra cá não é fora de escopo. Aí segue o primeiro conto:

O Pacífico naquela parte do continente estava calmo como sempre. Várias pessoas, mesmo sem usar roupas de banho, sentavam na areia da praia de Acapulco. Fitavam as geladas e suaves ondas que vinham do mar. Perto da praia, havia uma praça, que ficava um pouco depois do cassino. O lugar era arborizado, e bem frequentado. Era esse o lar de vários cachorros de rua. Quase todos eram bem grandes, geralmente de cor escura e variações de pardo. Se organizavam em matilhas, que se comportavam como gangues de rua. Muitas coisas eram por conta de cada um. Costumavam saquear, hora em grupo, hora individualmente. As vezes passavam por maus bocados. Nem sempre tinham comida fácil. Na verdade quase sempre só se comia uma ou duas vezes por dia. Sendo que a refeição mais farta era a da madrugada. Onde todos os cachorros saiam a revirar lixo pela cidade. Em busca de qualquer pedaço de material orgânico, de onde possa ser retirado algum valor nutritivo pra que se mantenha vivo no outro dia. Muitos dos dias, principalmente no período do fim da manhã, era preferível dormir em uma sombra e esquecer das necessidades do corpo. Economizar energia era fundamental para a sobrevivência. Assim era a rotina dos cães de rua de Viña del Mar.

Já era noite quando começou uma certa agitação em uma das matilhas. Um inimigo tinha invadido o território deles. Era um cão de outra região, que por algum motivo desconhecido foi encontrado passeando por ali. Logo aquela gangue de cães responsável pelo lugar se pôs no caminho do coitado, que não parecia ter más intenções.

Em seguida apareceram três homens, que pareciam caminhar normalmente como todos os outros. Mas um deles fez um gesto ofensivo para um daqueles cachorros, que desconfiado, mudou seu alvo e revidou contra o homem, mas não se aproximou tanto. Era o líder da matilha. Latiu tão forte que todos os outros perceberam, e logo abandonaram o alvo anterior. Aquele desgraçado e acoado cão que ninguém sabia de onde saiu, aproveitou o incidente e sumiu dali.

O grupo de cães enfurecidos arrodeou o ousado rapaz e tentaram intimidá-lo. No começo ele não levou tão a sério. Os outros dois que estavam com ele, saíram de perto e ficaram rindo. Quando ele viu que a coisa estava ficando séria, já com alguns cachorros batendo os dentes e fazendo movimentos bem agressivos, e alguns deles já até se aproximando sem serem percebidos. Ele sacou um pau e começou a girar. Mas não teve coragem de bater nos cães. Talvez se tivesse feito isso não teria sido perdoado. Os animais mantinham uma distância segura, e sem se mostrarem inferior foram recuando cada vez mais. Assim, aquele homem se safou e saiu ainda com a arma na mão.
Foi aí que de repente a matilha virou-se para um dos cães do próprio grupo, e o atacaram de forma repreensiva. Era o covarde do grupo. Durante o enfrentamento com o homem, ele tinha ficado longe, com medo. Covardia não era perdoado naquele meio. Na rua, ou se mata ou se morre. Naquele dia estavam todos a mil. O animal rejeitado conseguiu fugir mesmo assim. Seguindo sem destino por entre aquelas frias ruas de um fim de sábado.

Era um animal grande, negro. Tinha sido parido por ali em qualquer canto, por uma cadela de rua que morreu afogada na praia de Reñaca. Apesar de sua costumeira covardia, em sua vida já havia conseguido fecundar algumas fêmeas. Mas normalmente cruzava com alguns outros machos também. As vezes pra não morrer, acabava sedendo ser penetrado por outro, e isso já nem o incomodava, apesar de não ser algo agradável. A vida nunca foi coisa simples. Em seu caminho não era raro brigas de rua e confusões diversas com outros cães, gatos ou seres humanos também. Nunca soube se um desses cachorros estranhos que já o feriu ou o sodomizou era alguma cria sua. Também não se sabe se alguma das fêmeas com qual conseguiu alcançar, fosse mais uma cria. Para cachorro é complicado saber certos detalhes. Para ele era muito mais valioso buscar comida do que uma fêmea. Quando aparecia uma no cio, as vezes mais de cinco animais lutavam e se feriam por ela, acabava copulando com dois ou mais, o que não era simples, devido a constantes interrupções. Como saber essas questões de filhotes? Era até ridículo notar esses detalhes. Cada um é cada um, e no mundo é cada um segurando sua própria onda. E que onda! Outra vez, ele fez parte de um grupo de cães que dominavam um cerro ali perto da praça. Mas uma vez foi atropelado por um carro. Depois disso não foi mais aceito pelo grupo que fazia parte, não se sabe bem o motivo. Agora se ele subir naquele cerro que um dia havia sido sua casa, corre o risco de morrer.
E mais uma vez se ver obrigado a mudar os caminhos de sua vida. O que seria dele agora sem o direito de viver naquele lugar que a tanto tempo já era sua casa? A praça do lado do cassino era como uma morada de luxo. Não era para qualquer bicho não. A vida de cachorro é assim, por um tris você não é mais aceito. Tem que sair com o rabo entre as pernas a perambular sem rumo por aí. Até encontrar o fim de tudo ou o começo de outra coisa.

Foi quando, desconsolado enquanto passava pela pequena ponte que dava acesso a praia de Acapulco. Encontrou duas criaturas familiares. Eram dois daqueles homens que ele tinha visto anteriormente. Os que tinham participado daquela confusão. Ele se adiantou com a calda balançando, e correu para o lado dos rapazes, que iam em sentido a Valparaíso. Ele continuou seguindo os dois, e tentou chamar a atenção de qualquer forma.

Logo foi percebido, e aceito naquele novo grupo:

- Veja, esse cachorro tá nos seguindo a um tempo já.
- Ele gostou de você.
- De mim? Não, gostou de você!

Um dos rapazes, o que provocou a confusão, seguiu chamando o cachorro, e assim foram os três. Costearam o mar, passaram pelo relógio e logo estavam saindo de Viña Del Mar.
- Cara, não tire esse cachorro do ambiente dele.

- Não estou fazendo muita coisa, ele quem quer vim.

O grupo seguiu por alguns poucos quilômetros até a entrada de Valparaíso. Logo na entrada, embaixo de uma passarela perto dos trilhos do trem, um cachorro daquela área, ao ver o invasor, se levanta e dispara ferozmente em direção ao grupo, latindo afim de impor sua autoridade sobre aquele lugar. Mas os humanos intervêem. Um deles bate o pé com força no chão e se coloca em uma posição ameaçadora para com o cão de Valparaíso. O animal não se atreve a dar um passo a frente. Enquanto isso, o vira-lata que tinha se aliado com os homens, ladra também se enchendo de coragem.

- Veja só, está todo confiante ao nosso lado, olha!

O grupo continuou e seguiram para um posto de gasolina para comprar um refrigerante. Não precisou nem explicar, o cachorro já sabia que não podia entrar ali. Ficou esperando ansioso do lado de fora. Mas do lado de fora, o cão do posto chegou latindo enfurecido com a presença daquele cachorro desconhecido. Os homens não demoraram tanto, logo voltaram e seguiram o caminho. Passaram por uma poça de água e esperaram o seu amiguinho saciar a sede.

Após passar por debaixo do viaduto, já se podia ver as ruas de Valparaíso, que estavam bem sujas nesse fim de sábado. Cheias de sacos de lixo soltos por todos os lados. Os homens seguiram a caminhada no mesmo ritmo de sempre. Mas a pobre criatura se afobou diante de tanta comida que aquela cidade podia oferecer. E enlouquecido saia de lixo em lixo procurando resíduos que possam ser aproveitados. Hora se perdia dos homens, hora tornava a encontrá-los. A amizade entre o grupo já estava bem firme, e tanto cão quanto homem percebiam isso.

A fome era grande, e apesar de muito lixo solto, nem tudo era comida. O pobrezinho frenético adentrava nos becos e ruelas buscando algo para comer. Seguia naquele ir e voltar. Sempre vigiando para que os seus amigos não se afastem. Até que em uma dessas idas, ele não viu mais seus amigos humanos. Não viu nunca mais!

Pela manhã do outro dia, aqueles dois vinham voltando para Viña Del Mar. Como de costume, vinham a pé. Pareciam já ter esquecido aquele alegre amigo da noite passada. Até que encontraram no caminho, um cachorro morto no acostamento.

- Será que era aquele cão preto de ontem?
- Tá parecendo. Olha aquela marca no pescoço dele, ele tinha uma igual.
- Eu te falei pra não tirar esse bicho do lugar dele...
- Espere um pouco... não, me enganei. Acho que não é ele não...

E os dois seguiram suas vidas normalmente em suas rotinas comum.

0 comentários: