Tinha saído na terça de meio-dia mais ou menos, de Santiago, afim de chegar ao Brasil.
Cheguei no Brasil as 12 horas na quinta-feira. Maldição! A combinação de fim de dia e fim de semana foi devastadora pra mim que estava na estrada...
Uma série de fatores combinou para piorar tudo. Os caminhões não passam pela aduana depois das 10 da noite. O meu motorista guardou o caminhão em um estacionamento no lado Argentino. Pensei: 'Me fudi!'. Mas o cara foi solidário, e me botou no mesmo taxi que levou ele pra casa dele, passei na aduana de taxi e nem se quer devolvi os documentos de migração. O gentil caminhoneiro me deixou na boca da estrada e explicou onde era o porto seco de Uruguaiana, o maior da América Latina. Me apontou um posto de gasolina (que mais parecia está fechado), e se foi (desconfio que se foi meio choroso, afinal foram dois dias de convivência intensa!).
As coisas foram muito mal desde o começo... Começando com o posto que ele me deixou. Estava fechado, e os seguranças não me deixou dormir lá:
- Uma vez uns bahianos acamparam ali e bagunçaram bastante.
Tudo bem, segui a estrada escura e deserta sem destino e de madrugada. E agora... estava eu n o Brasil, país onde se assalta com violência e não com a esperteza, fiquei com na alerta, mas segui sem medo. E até pedi carona enquanto caminhava pra os únicos 3 carros que passou, sendo o primeiro da polícia e os outros dois que iam para um motel que havia na estrada. Mas logo encontrei uma placa maravilhosa indicando posto de gasolina, e desde o primeiro posto acredito que não caminhei por mais de 1km, e lá estava meu posto/dormitório, lotado de caminhões.
Na entrada do posto, uma placa bem grande e legível, que alguém deve ter pagado uns R$ 15,00 reais pra algum pintor de placa fazer, e na placa dizia:
- Proibido pedir carona
Lindo, estou fudido! Mas pra quem já dormio na rua, no mato e em qualquer lugar, o que vinher agora é lucro... viver é um risco! Fui com a cara de pau típica dos caroneiros e perguntei ao cara com cara de vigia que estava perto da placa se eu podia acampar por lá. Ele me surpreendeu:
- Tem uma grama ótima alí em cima, inclusive tem uma torneira.
E lá fui eu, acampei tranquilamente, tão tranquilo que até dormi pelado (o calor estava de matar).
Na manha seguinte, respeitei a palca, e saí daquele posto em direção ao próximo que aparecesse, até mesmo porque, apesar de ter caminhões parados, não parecia ter tanto movimento. Pra minha sorte tinha um posto logo em seguida, um pouco mais movimentado, mas nem tanto! Gastei um pouco dos meus primeiros reais numa coxinha (comida que só tem aqui no brasil), e aqueles R$ 20,00 reais do mapa que eu vendi em Mendoza era tudo que eu tinha. O posto não estava tão bom, e na saída dele peguei um carro com um pai e uma criança que me levou uns 5km até o posto policial, onde possivelmente seria mais fácil. Um pouco tempo depois, chegou um cara com roupas limpas, e da mesma faixa etária que eu, com uma mochila nas costas... mais um caroneiro! Ia pra o mesmo lugar que eu! Mas tanto eu quanto ele sabiamos que o melhor era viajarmos separados. Conversamos o tempo inteiro e ele respeitou a minha vez (pois eu tinha chegado primeiro), e quando minha carona, um caminhão parou depois de um pouco de insistência, ele também abordou meu motorista se podia levar nós dois, mas foi negado. E assim segui até o famoso posto 'Texacão'.
No 'Texacão', pensei - Estou em casa, minha carona não tardará! - O meu amigo caroneiro tinha me alertado sobre o quão bom era esse posto. Lá, vi o primeiro gaucho com roupas típicas, e esse era um senhor, que igual estava abordando os caminhoneiros afim de viajar pra uma cidade do sul. Foi bastante difícil tanto pra mim quanto pra ele, mas ele foi embora antes que eu, em um caminhão. A minha carona foi aparecer bem depois, e não no posto, apareceu na estrada, era um funcionário público, e logo me falou a frase clássica:
- Eu não costumo dar caronas
Que nada, não me importo. As vezes isso é tão comum quanto 'isso nunca me aconteceu antes', assim vou... Fui até Rosário do Sul. A estrada estava empestada de argentinos, para cada 4 carros 3 era argentinos, e eu não estou exagerando nenhum pouco. Era sexta-feira e todos iam para a praia, ou seja - Carros extremamente lotados, e quase nada de caminhão.
Em Rosário fiquei num canto horrível que ninguém parava, definitivamente essa é uma cidade onde não tem bons postos. Decidi encarar os 2km que me faltava e por sorte passa por mim uma carroça de cavalo com um gentil velho e uma criança. Pedi pra mim levar até o posto policial e é claro que eles me levaram. Até me deu 1km de presente, pois o caminho dele era apenas 1km e o posto ficava a 2km.
O carroceiro me contou que ia pegar casca de arroz em uma fábrica, e ele fazia isso todos os dias naquele horário. Era o que ele tinha disponível pra comer. Apartir de hoje quando você for comer um arroz branquinho bem soltinho, se lembre que nem todos tem esse previlégio. E paradoxalmente as melhores vitaminas do arroz está na casca. Nem, mas me distanciei do assunto (até o Dostoiévisk faz isso as vezes).
Foi uma entrada fenomenal, quando o policial federal viu aquela cena da carroça com toda a calma do mundo chegando com um sujeito como eu - todo queimado do sol, com uma mochila gigante nas costas - ficou sem ação e parou esperando entender o que se tratava. A minha carruagem parou diante do policial, eu desci com a mochila, agradeci meu chofer e cumprimentei o policial...
- Quem não tem cão caça com gato, amigo policial.
Era um sujeito super simpático, me serviu com uma água bem gelada, e como alí mesmo tinha uma stand de informações turística, ainda ganhei um mapinha completo do estado do Rio Grande do Sul.
Esperava chegar no mesmo dia... mas essa foi a que considero a viagem mais difícil e demorada. E a sexta-feira era o último dia útil que eu tinha, se caísse o sábado e domingo eu correria o risco de não sair do lugar na estrada. Mas quais as escolhas que eu tinha? Faço das minhas as palavras de Raul Seixas:
- E esse caminho que eu mesmo escolhi, é tão fácil seguir, por não ter onde ir!
Em um outro post eu continuo...
Witch - Witch [2006]
1 dia atrás



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