Tempos corridos... A Theresa acabou desertando por ter lá seus motivos pessoais e uma certa pressa incomum de chegar. De repente me vi sozinho em Teresina e na eminência de mais uma depressão de viagem, algo semelhante ao que passei algumas vezes da outra vez que saí por aí.
Diante dessa questão, resolvi fazer bem ao meu estilo. Descobri que o próximo barco que sairia para Manaus só iria sair na terça. E não contei duas vezes, peguei o ônibus no Domingo, ainda na espectativa de achar a Theresa em Belém.
Fiz uma curiosa manobra que me rendeu uns R$ 14,00 da passagem que iria ser R$ 100,00. Primeiro, resolvi ir pra a rodoviária de Timom-MA ao invés de ir na de Teresina-PI, o preço não mudou. Também não achei os tais ônibus clandestinos. mas a economia veio quando entendi que eu podia pegar um ônibus pra Santa Inês, de lá ainda embarcar no mesmo ônibus que me cobrava R$ 100,00 a partir de Timom. Assim fiz e cheguei de madrugada nessa cidade. Ainda testemunhei um covarde roubo: um maluco que arrancou R$ 20,00 das mãos de uma moça que pagava a passagem. Já embarcado no outro ônibus, tudo o que eu tinha que fazer era dormir e imaginar o que fazer ao chegar em Belém.
Belém parecia uma cidade fantástica, cheia de sabores, figuras e formas, mas eu não queria experimentar isso em uma noite perdido na rua sem ter um teto pra dormir, daí não contei conversa, fui logo atrás do tal barco, que seria o primeiro e único, por isso provavalmente Theresa estaria nele. Lá estava eu em mais uma corrida bizarra de viagem.
A notícia de que eu poderia dormir no barco, mesmo antes dele sair me alegrou, pois iria economizar com o albergue. Paguei exatos R$ 180,00 pela passagem Belém-Manaus, a mesma não me dava direito a nada a mais. Me falaram que eram 4 dias de viagem. Mas depois me falaram que eram 5. De qualquer forma, eu sabia que teria que comer durante 4 ou 5 dias as minhas custas e na base do monopólio.
Me alertaram que o bairro do porto que eu iria embarcar era o pior que existia, eu não deveria nem olhar pra os lados antes de entrar no porto. Depois que entrei no porto, tentei sair pra usar internet ou comer algo, e me deixaram entender que isso era praticamente suicídio. Encarei tal suicídio e saí (como se fosse o primeiro que encaro), o barro realmente tinha um aspecto único. Conheço favelas de muitas cidades, mas essa tinha um tom especial. Com muitíssimo lixo misturado com água, um esgoto a céu aberto que talvez fosse parte de um rio, passava por debaixo das casas que eram construídas de madeira sobre essa vala. Não era fácil entender onde começava uma construção e terminava outra ou até mesmo onde era a porta de entrada de cada casa. Ainda bem que ninguém mecheu comigo. E nessas alturas eu já tinha começado minha embreaguez alcoolica.
A primeira noite no barco, ainda atracado, foi brindada com muita fartura entre cerveja e vinho e uma perturbada noite embreagada junto com meus novos amigos que embarcara junto comigo. No dia seguinte, esperávamos a grande partida, um dia movimentado onde chegaria gente de todo canto e iriam lotar aquele barco ao máximo. Eu mal podia esperar. Tudo aquilo me encantou bastante.
No dia seguinte a ressaca não veio, ao invez dela, uma parcela da embreagez ainda me agitava. E a bebedeira começou logo cedo. Enquanto olhávamos os novos passageiros e nossos companheiros nos próximos 5 dias. Enquanto subia gente toda hora e paravam taxis entregando mais passageiros, vários homens suados trabalhavam sem parar carregando o barco desde o porão até uma parte do primeiro andar. Todo mundo corria de um lado para o outro.
Haviam dois grandes dormitórios, no primeiro andar e no segundo, que eram salões onde es expremiam umas 150 redes em cada um, era lá onde eu iria. É claro que tinhamos nossas divisões de classes, e isso se fazia atravez dos camaoretes que sabe-se lá quanto custou, onde a maioria dos ocupantes eram gringos no centido mais perfeito da palavra. A noite da partida foi de pura embriaguez também. E tive a brilhante idéia de traficar vinho, e fiz da forma mais anarquista possível. Pedi dinheiro a todo mundo, comprei um monte de garrafa de vinho, escondi na minha mochila e saí discretamente distribuindo pra todo mundo no barco (teve até quem pensasse que eu era tripulante). Algumas garrafas foram parar na gerência, mas nada que atrapalhasse a festa. A noite o bar do navio quebrou a monofonia do calipso/melodi/tecnobrega e resolveu tocar Michael Jackson, foi uma louca embreaguez em meio aos balanços do rio.
Os dias que se seguiram, só água e floresta. As pessoas do barco se aproximavam cada vez mais umas das outras e se envolviam. Cada um com sua própria história de vida. Muitos levavam tudo que tinha em busca de uma nova vida. Outras iriam apenas tentar vender algumas coisas pra voltar com dinheiro. Uma coroa iria encontrar um namorado que conheceu no orkut. Uma ex-casada estava trazendo seu filho de volta. Um ex-presidiário buscava vida nova. Um assassino fugia da culpa de um assassinato depois de uma briga no Maranhão. Assim seguiu nosso barco.
De Belém a Santarém muitas canoas nos seguiam jogavam ganchos para se parelhar a nós, daí entravam no barco e vendiam açaí e camarão, recéns tirados da floresta. Foi reslmente uma experiência única pra eu que tudo que conheço são essas estradas e asfaltos flamejantes do sul do nosso continente. Além dessas, algumas canoas também se aproximávam, e crianças e mulheres com caras tristes pareciam acenar dando chau, mas me explicaram que aquilo era o sinal de 'esmola'. E do barco muita gente jogava coisas, pacotes com roupas, balas e etc... Um argentino malabarista me falou uma coisa que chamou a atenção:
- Eles não são pobres, nem necessitados, eles tem a floresta e ela é muito rica, eles tem tudo, comem bem. Eles apenas não tem nossos venenos, celulares, computadores. Mas veja, até canoas eles tem!
E isso é uma verdade. Com certeza não é o mesmo caso que eu vi no Nordeste.
No total foram 6 dias rio a dentro, e não 5 como previsto. Fiz muitas amizades, mas nem sinal de Theresa.